# 001 Porque lembramos de ESQUECER
Guardar uma memória lá no "fundo do baú" de nossa mente, muitas vezes não é esquecimento, é medo mesmo (ou quem sabe auto proteção, como queira). Temos tantas versões nossas, tantos "EUS" diferentes. Convidar um deles para um café e uma longa conversa sem pressa, pode ser uma boa ideia - acredite!
Bom, esta sou eu: a Fabiana de 1998. Como eu estava feliz nesse dia!
No auge dos meus 18 anos, recebi um convite para decorar um certo espaço de um núcleo de estudos marinhos em uma universidade de Santa Catarina. Já havia pintado em quadros e peças de madeira. Também nessa mesma época havia trabalhado em um ateliêr de peças de decoração e restauração de móveis.
Além disso já tinha rabiscado a parede do meu quarto (na casa dos meus pais) com giz de cera e tinta látex - a contragosto, desespero e decepção da minha mãe, que a cada ida a este que era um dos poucos ambientes em que podia ser eu mesma, ainda assim era pequeno perto de tamanha proporção do espaço liberado para fazer este grande mural.
Eu havia esquecido por completo esse momento. Dá pra ver no meu sorriso o quanto estava feliz. E então, por que essa Fabiana Artista e tão alegre se escondeu em meio a tantas recordações e memórias?
Pra onde será que ela foi? Ou pior, pra onde será que eu disse que ela deveria ir?
Quando ouço artistas reconhecidos por suas maravilhosas obras relatarem o quanto foram incentivados por seus familiares a desenvolver suas habilidades de se expressar pro mundo, e também quando ouço aqueles e aquelas que por vezes, se dedicar a sua arte é um grito de resistência às adversidades incansáveis que a vida lhes proporciona, eu me pergunto: "Onde eu me encaixo nisso?". Sim, por que uma criança "padrão" - branca, loira de olhos claros, criada em uma região onde a descendência européia é um “orgulho”, ainda assim continuava sendo filha de um pescador e de uma dona de casa. A Arte não fazia parte dos ambientes onde eu frequentava, e foi assim por diversas épocas da minha vida morando no interior.
Minha recordação mais antiga em que eu estou desenhando é, em algum momento por volta dos meus 4 anos, rabiscando e colorindo uma folha (com aquele cheiro característico de álcool etílico que as crianças dos anos 80 conhecem, quando a professora usava o mimeógrafo). O lugar era o Jardim de Infância Piazito, e as ilustrações eram uma tentativa de representar os personagens da Turma da Mônica (resultado de algum esforço e dedicação amorosos das professoras que buscavam fazer algo parecido com os desenhos do Senhor Mauricio de Sousa, apenas para fazer a alegria daquelas crianças que tanto gostavam de desenhar e colorir - e entre elas, eu estava ali também).
Mas fiquei um bom tempo pensando por que eu havia esquecido desse dia. Qual teria sido o real motivo?
Talvez, porque a amiga que me convidou pra esse projeto, já saiu da minha vida há muito, mas muito tempo.
Talvez, porque no verão de 98 também trabalhei por 4 meses de copeira em um restaurante onde o repertório musical era o “CD do Gera Samba” tocando repetidamente durante toooodo o dia, algo do tipo: “...Essa é a onda, essa é a onda do Carrinho de mão, padá-badá-padá-pa!". Tá bom, parei (risos)!
Talvez, por que foi a partir dessa época que fui ficando cada vez mais longe do contato com as tintas e rabiscos - e só 6 anos depois disso comecei a desenhar profissionalmente, mesmo com todos ao meu redor dizendo que "ser desenhista não é profissão". A Moda me mostrou que sim, era possível "trabalhar de desenhar" e foi assim que no mercado têxtil atuei por mais de 15 anos como designer de estampas e bordados. Época em que neste ramo, desenhos originais eram valiosos e bem pagos - e o banco de imagens da internet deste período era bem, digamos, "vazio".
Mas ainda corríamos o risco do tal “plágio”: diversas marcas atentas a copiar um desenho de uma determinada estampa e assim, muitas vezes precisando fazer uma foto do produto ou comprar esse produto. Em alguns lugares também trabalhei com o lema "tal e qual" quando os desenhistas eram obrigados a refazer a arte da estampa, e tinham que "se virar" pra conseguir o mesmo efeito ou textura no layout ao fechar o arquivo que ia pra estamparia. Não sinto saudades disso.
Ou talvez seja porque a foto desta Fabiana represente uma Artista que guardei por muitos anos, e a cada troca de empresa, a cada mudança de profissão, a cada “promoção na carreira” - com funções administrativas ou de gestão de processos liderando equipes, ia esquecendo dela e assim (talvez) poderia sofrer menos. Mas parece que não funcionou.
Ter escondido essa Fabiana Artista contribuiu aos anos de bloqueio criativo que tive em diversas fases da vida sem conseguir desenhar um único rabisco ou para aqueles raros momentos em que desenhei e que, logo em seguida, tinha que deixar de lado para buscar outras formas e meios de pagar os boletos. “A vida como ela é!”, diziam pra mim.
Mas queria também dizer que passado algum tempo, hoje marquei um café com essa Fabiana. E ela muito animada me recordou os detalhes desse dia de ilustrações e pinturas na parede. Ainda eufórica e falante, usando aparelho nos dentes, com seus longos cabelos cacheados me contava as sensações de pintar aquele fundo do mar, simples porém, marcante.
E mesmo a Fabiana de hoje sendo tão preocupada com o rumo que a Inteligência Artificial está dando pras nossas vidas, profissões e aos registros do tempo (verdadeiros) com momentos mostrados em fotos ou vídeos duvidosos, ainda assim, fiquei feliz de poder dar "vida" a Fabiana Artista de 1998, aplicando um efeito de movimento aquele momento estático, mas não parado na memória (o vídeo está postado no meu instagram @fabiana_souflores).
Esse café entre essas minhas duas Fabianas foi com certeza, mágico.
E recomendo. Sim, faça você também, e mesmo que com cautela (e um pouco de desconfiança) de qual dos seus "EUS" você vai convidar pra te visitar, ainda assim, tenho certeza que algo muito especial ele poderá te trazer. Nem que seja te fazer sorrir novamente por te lembrar de você ser apenas…você mesmo!
Fabiana Flôres

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