#006 Vivendo uma dor assistida

Nunca gostei de falar sobre morte. Perder um ente querido, saber que alguém morreu - mesmo sendo um desconhecido, sempre foi um assunto que me paralisava e que eu sempre preferi “evitar” confrontar. 


Na minha infância dos anos 80 de cidade do interior, era muito comum a presença de crianças acompanhando seus pais em cerimônias como velórios. Todos aqueles adultos, conhecidos e desconhecidos conversando o tempo todo. Alguns chorando, outros não. Flores, muitas flores. Pessoas relembrando de momentos da vida de quem partiu. Risadas (que eu achava muito estranho pois não entendia como poderiam rir tendo uma pessoa ali sendo velada). Eram eventos em que os ponteiros do relógio nunca andavam, marcando aquelas horas intermináveis. 

Entre os 6 e 8 anos vi a partida dos meus avós paternos. Me dei conta outro dia que meu Pai não tinha nem 40 anos quando perdeu seus pais (eram 37 na partida da minha avó e 39 anos na do meu avô). Com minha mãe, várias vezes eu e meus irmãos fomos a velórios de vizinhos, alguns deles senhorzinhos ou senhorinhas. Pessoas que faziam parte de nossas vidas e visitávamos com frequência para um café da tarde ou algum doce que minha mãe fazia para levar à eles como um pequeno agrado. Entre meus 17 e 20 anos, vivenciei três partidas muito próximas: meu avô materno e da família do meu Pai, uma tia que era irmã dele e uma prima (tínhamos a mesma idade). 


Da minha prima e tia, eu não lembro de quase nada. Já do meu avô - que foi velado em casa, lembro bem. Era inverno em uma madrugada gelada que parecia não ter fim. Conforme o dia seguinte se iniciava, pessoas foram chegando. Diversos parentes, amigos e conhecidos do meu avô. Ele era ferreiro (um dos últimos da região onde morava), e era muito popular entre a vizinhança. Algumas crianças da escola - que ficava em frente a sua casa - guardavam suas bicicletas nos fundos de sua ferraria. Conhecidos vinham pra ficar “de prosa” com ele. Outros traziam serviços como amolar facas e facões, ou consertar outras ferramentas. Num certo momento comecei a observar o comportamento “estranho” das pessoas. Rindo, conversando, até mesmo se servindo - talvez com café, bolo ou biscoitos, não tenho certeza. E eu com meus 18 anos olhando aquela cena fui ficando realmente incomodada. “Como eles podem rir? Meu avô tá ali no quarto dele…morto! Meu avô morreu. Será que não percebem o quanto estão sendo desrespeitosos?”, indagava eu na minha cabeça, sem compartilhar com ninguém. Eu não entendia. Não percebia que aquele momento poderia também ser uma celebração afetuosa, com partilha de histórias e momentos bons que cada um deles ali tiveram com meu avô. Mas eu não tinha essa percepção. Pra mim tudo o que envolvia MORTE era triste, sombrio e doloroso. 

Minhas perdas mais recentes foram de minha avó materna, em 2022 e meu Pai neste ano de 2026 (irá completar 2 meses nos próximos dias em que escrevo este texto). E essas duas perdas tão difíceis me levaram a algumas reflexões, de assuntos que geralmente evitamos falar, de conversar com os demais, de entender melhor. 

Estou falando sobre MORTE ASSISTIDA. Você conhece? Sabe do que se trata?


Eu particularmente conhecia apenas um procedimento chamado eutanásia - e que é proibido no Brasil, considerado crime. Era o que eu sabia de mais relacionado a esse tema. Vendo a dor e todo o sofrimento vividos nos anos, meses finais de vida da minha avó - e de todos ao seu redor, em particular minha mãe e duas tias que se revezavam nas 24 horas de cuidados diários (os demais tios e tias davam outros tipos de suporte, também essenciais neste momento como a gestão de medicamentos, plano de saúde, alimentação especial, tomadas de decisões em conjunto, entre outros certamente importantes). Minha avó teve Alzheimer. Os esquecimentos foram surgindo aos poucos, quase que silenciosos. Discretos, com uma sensação de “É coisa da idade.” Ela já tinha mais de 80 anos quando começaram os sinais: 

“ - Vamos sair pra caminhar, vó? 

  - Cadê meu óculos, o de sol?

  - Vó, a senhora acabou de guardar na bolsa.

  - Não, não guardei não! 

  - Guardou sim, vó. Eu tava aqui com a senhora, eu vi quando guardou. 

  - Não guardei, eu tenho certeza! 

  - Vamos dar uma olhadinha na bolsa, só pra ver se de repente não está lá?

  - Ah, tá aqui. Eu não lembro de ter guardado….

  - Tudo bem, vó. O que importa é que a senhora achou. Vamos pra nossa caminhada?”

Me lembro bem em seguida daquele olhar vazio e distante de quem, por um momento, se perdeu no próprio pensamento. 

E vai piorando. Não tem uma regra. Cada pessoa vive algo único quando é diagnosticado com essa doença. O tempo fica estranho, o relógio muda. A paisagem, os lugares, as pessoas…são na sua maioria todas do seu passado. As do presente vão se tornando quase que um amontoado de pessoas desconhecidas, que nunca se viu na vida. 

Uma vez, por telefone conversamos eu e ela: 

“ - A vó tá muito esquecida! 

  - Tudo bem, vó. Eu também esqueço. Tem gente que eu não lembro o nome…

  - Não, não. É diferente! Tem gente que vem aqui me ver, falar comigo…e eu não tenho a menor ideia de quem são. Mas Deus é quem sabe, né? Se ele quis assim…” 

E esse foi um dos raros momentos de lucidez num lugar do relógio entre a demência e o tempo presente que passamos juntas. Minha avó foi definitivamente definhando. Emagrecendo, encolhendo…sumindo. Não só fisicamente. Foi sumindo também a pessoa que conhecíamos. Certa vez fiquei com ela no hospital - era a primeira vez vivendo isso, sendo acompanhante de quarto de alguém. Das 19h às 07h da manhã. Muito café. Nem pensei em cochilar - tinha medo de adormecer e demorar para acordar. Também porque queria ficar monitorando seu estado. Foi uma longa noite. 

Dois enfermeiros vieram trocar a roupa de cama e dar um banho de leito. Vi aquele corpo frágil, gemendo muito - e o enfermeiro me explicava, enquanto ele e sua colega faziam os procedimentos: “Sabe por que ela geme assim? Ela está com medo. Ela não entende onde está e o que está acontecendo. Não é dor, fica tranquila….”, disse ele tentando me acalmar, vendo minha expressão de total angústia e desespero. 

São muitas coisas vividas neste processo, não tenho como detalhar tudo. Mas o que sei é que vi minha avó realmente perdendo sua existência, sua essência. Era um corpo em um sofrimento indizível, até sua partida. 

E este ano foi meu Pai. Ele já vinha sofrendo com um problema grave no joelho e outras questões. Aguardava o momento da sua cirurgia. Nos últimos anos, foi deixando de andar de bicicleta - estava caindo, se desequilibrando constantemente. Depois, mancando. Aí veio a primeira muleta pra ter apoio para andar, bem devagar. O andador…e até não poder mais caminhar. Foi um processo lento e constante. Silenciosamente agressivo e diariamente dolorido. Ele acordava e dormia com dores terríveis. Todo dia…durante anos! 

Também não há como entrar em detalhes aqui, mas meu Pai fez sua cirurgia - colocou uma prótese no joelho. Poucos dias depois teve infecção generalizada - e outros agravantes. Foi pro hospital e de lá não voltou mais pra casa. Teve UTI, intubação, morfina. Em várias das diárias avaliações médicas nos disseram que a dor que ele estava sentindo era de uma profunda agonia inimaginável. Sua perna ia “morrendo”, antes dele. 

Relatei aqui uma pequena parte do processo de minha avó e meu Pai para chegar na seguinte pergunta: se eles tivessem ideia do sofrimento que viveriam em seus meses (até mesmo anos) finais de vida, será que iriam optar mesmo por passar por tudo isso, se lhe dessem o poder de escolha? 

Minha avó e meu Pai são de gerações em que envelhecer, adoecer, ficar acamado fazem “parte da vida”. E eu te pergunto: será mesmo? Comecei a pensar sobre isso quando conheci o Eu Decido - Associação civil pelo direito à morte assistida: “Nascemos para defender o direito de cada pessoa a decidir sobre seu próprio fim de vida — com dignidade, cuidado e liberdade.” 


Quando vi pela primeira vez, confesso que não entendi nada. Ainda mais, como já disse, falar de morte sempre foi algo muito difícil para mim. Mas lendo, ouvindo relatos, me informando sobre a seriedade desta associação, fui percebendo o quanto é importante sim olhar para a morte como parte da nossa caminhada e dos demais que nos cercam, estando muito mais perto de nós do que lá no “fim do horizonte”, tão distante - como geralmente fazemos. 

Eu nunca havia participado antes da organização de um enterro. Eu e meus irmãos nos dividimos, auxiliando minha mãe - que tinha um plano funerário (outro assunto que sempre evitei, achando que esse dinheiro deveria ser usado “em vida, não na morte” e que de verdade foi algo essencial neste momento). Quase sempre na família tem “aquele” ou “aquela” considerado com mais preparo, que sabe “cuidar melhor desse assunto”. Olha, posso dizer com sinceridade que isto é um pensamento muito egoísta. 

Quando nos dividimos nas tarefas, algumas delas fizemos juntos eu e meu irmão mais velho. Ir ao hospital ver a documentação de comprovação do óbito, pegar a bolsa com os pertences do meu Pai. Ir a uma sede administrativa de um cemitério para dar andamento aos documentos do plano funerário. Ir na funerária. Escolher uma coroa de flores.  

Escolher o caixão de meu Pai. 

Não sei explicar o que sinto quando me lembro disso, mas posso dizer que não ter feito isso sozinha foi muito, muito importante nessa hora. Lembro também de um certo momento, em uma conversa telefônica em que eu e meus irmãos falávamos sobre o tipo de enterro do meu Pai - esse assunto veio à tona quando nos foi dito que ele estava em estado terminal. Não foi uma conversa fácil. “Será que deve ser cremado? Será que então enterrado na sepultura de parentes, junto a seus pais?”, são perguntas que nunca fizemos pro meu Pai. Saber o que ele queria, saber quais seus desejos finais, o que lhe era importante. Fui me dar conta disso só quando ele já tinha partido. Como na família do meu Pai segue-se com o velório e enterro tradicionais - velado na capela para que as pessoas possam ter oportunidade de se despedir - assim foi feito pra ele também.

Será que se ele tivesse entendimento dos riscos que sofreria, caso o pós operatório não corresse bem, analisando as possibilidades de situações que poderia viver como UTI, intubação, morfina e estado de inconsciência constante em suas últimas semanas…será que ele não iria pensar sobre ter um fim de vida sem toda essa dor indizível? 

Será que minha avó sabendo que em um determinado momento ela poderia se tornar apenas um ser respirando - sem saber mais mastigar, ir ao banheiro. Sem memórias, sem palavras, um corpo ausente de sua história, de seus pensamentos…será mesmo que ela iria querer passar por tudo isso apenas existindo como um ser vazio e não mais vivendo com a dignidade que tanto merecemos?


Com essas experiências recentes que vivi é que continuo estudando e acompanhando o tema MORTE ASSISTIDA. É um processo muito sério, com avaliações criteriosas, feitas com a pessoa lúcida - e decidindo como quer viver seus momentos finais. Decidindo como e quando. Decidindo por querer ou não mais viver tudo aquilo que para muitos pode se arrastar por anos. Para alguns, com lucidez na mente sem ter seu corpo mais respondendo aos seus comandos. 

Já se imaginou nessa situação? A vida de todos seguindo e você “preso” ao seu próprio corpo, consciente de tudo o que se passa ao seu redor? Não será egoísmo de nossa parte querer ter essa pessoa junto aos seus, sendo ela - apenas ela - que sabe o que está realmente sentindo e vivendo?

Eu sei, são tantas questões. É tudo tão difícil, tão delicado. Mas importante! 

É fundamental falarmos do assunto. Falar sobre a morte, falar de se ter autonomia para seus desejos e vontades. Falarmos tanto ao ponto de naturalizamos isso em uma roda de conversa com amigos. Falar com as pessoas que amamos, …Falar! 


Recomendo a leitura, vídeos e explicações do site www.eudecido.org.br que tratam desse assunto com muita transparência, seriedade e também, como eles mesmos se apresentam à sociedade: “Nossos fundadores têm trajetórias marcadas pelo compromisso com os direitos humanos, a justiça, a saúde e o cuidado. Juntos, trabalham para que o Brasil avance no debate sobre o direito à morte assistida, com responsabilidade, empatia e coragem.”


Que tenhamos então a coragem de olhar com serenidade para a morte, antes de sua inevitável chegada.  


Fabiana Flôres Ilustradora - Escritora - Designer e Corredora de Rua Amadora TCA Transtorno de Compulsão Alimentar #fabianaflores #alimentandovazios #nemteconto #morteassistida #eudecido #compulsaoalimentar







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