#002 Maria Bonita e sua vizinha SUDESTINA
A primeira vez que ouvi a palavra "sudestino" não tem muito tempo, talvez há uns dois anos atrás. Em um vídeo de humor, a história contada era sobre o novo contratado de uma empresa que faz uma vídeo chamada com seus dois novos colegas, e assim o chamam de "sudestino". Dizem também adorar o seu sotaque. Entre "chimarrão e pão de queijo", as piadas sobre sua origem (no caso, o personagem é de São Paulo), seus colegas fazem o que (quase) todo sudestino faz: achar que vários estados com suas culturas distintas são de fato resumidos um único lugar.
E é exatamente assim que fazemos com o Nordeste: são nove estados, cada um com sua cultura, sotaque e raízes (além da "diversidade das diversidades" dentro de uma mesma região). Eu que sou nascida na Região Sul (mais especificamente em Santa Catarina), confesso que por quase toda vida tive essa mesma visão que meu coletivo popular ainda têm, que é de tratar as regiões Norte e Nordeste como um único lugar, como o pessoal "lá de cima", do sertão, da pobreza, da falta de acesso à informação e de conhecimento.
Que erro terrível - e injusto! É preconceituoso, eu sei.
Bom, mudei para Sergipe (mais especificamente para Aracaju) no final de 2024, e a reação de conhecidos e familiares era a mesma: "Todo mundo querendo vir pra cá (SC) e tu foi fazer o quê aí?". Tive que explicar que não estava no "meio do sertão" com Lampião e Maria Bonita (até porque eles são de Pernambuco e Bahia, respectivamente.) E claro, seria uma honra conhecê-los, diga-se de passagem.
"Eu moro na capital", tive que afirmar mais uma e outra vez. Tenho o privilégio de morar numa região de proximidade com vários locais turísticos como o Farol da Orla, Oceanário do Projeto Tamar, Passarela do Caranguejo, Lagos da Orla, Feira do Turista, Kartódromo e os Arcos da Atalaia. Sim, ainda tem mais: a menos de 1km de casa é onde acontece o IRONMAN 70.3 - e que aqui já foram 2 edições, tendo além dos atletas locais e nacionais, em 2025 o evento contou com representantes de outros 11 países. Aqui é um lugar onde se respira esporte e o Nordeste é um dos principais polos emergentes de inovação e tecnologia do Brasil, caso você ainda não saiba.
Falar do Museu da Gente Sergipana, do Mercado Municipal, dos passeios de Tototó ainda é pouco. Um estado riquíssimo na cultura local e que prestigia suas raízes. Mas parece que nada disso ainda é suficiente. A visão de que estou morando no meio do sertão, com pouco ou nenhum acesso a luz e água ainda mora fortemente no imaginário de meus conterrâneos sudestinos. Assim, o tempo me disse que eu deveria parar de me justificar ou dar explicações. É o que faço hoje.
E sim, tornei-me uma pessoa ofensiva ao chamá-los de SUDESTINOS, como se estivesse dizendo algum xingamento altamente agressivo ou desrespeitoso. Não vejo desta forma. Digo que sou sudestina, afinal, nasci na Região Sul (e para os amigos da Região Sudeste, também vale a mesma nomenclatura regionalista limitante).
Desde uma boa parte da minha infância - vivida nos anos 90, eu já escutava aqui e ali sobre um tal "O Sul é meu país!". Eu não entendia muito bem, mas com o tempo foi ficando muito claro o objetivo. Não era só "separar" territorialmente, e sim, culturalmente. Este é um movimento que se alimenta de um sonho distópico de um "país superior" econômico e intelectualmente. Sendo sincera, tudo isso pra mim não passa de um pensamento simplório e que poderia até ser chamado de imaginário, mas na verdade é cruel e puramente opressivo, racista, além de xenofóbico.
Aquele mesmo discurso de "a procura de uma vida melhor, de oportunidade, de poder sonhar com uma situação financeira mais segura" é o que perpetua na ida de muitos migrantes com destino à região Sul e Sudeste. Mas se torna uma grande ofensa para meus familiares e conhecidos quando digo que o que me motivou a vir pra cá (dentre algumas questões pessoais) também são estes mesmos objetivos, principalmente o custo de vida e segurança. E a PRAIA, é claro! “Como assim? Não faz sentido! Temos TUDO aqui…”, eles me dizem.
Tudo O QUÊ e pra QUEM?
Bom, assim como todo lugar deste Brasil de meu Deus, existem regiões mais prósperas e outras, menos. Existe violência, desigualdade e fome. Existem comunidades (ou favelas), pessoas com melhor poder aquisitivo e outras desproporcionalmente sem a mesma oportunidade. Estas não são características somente aqui do Nordeste, sejamos honestos. Mas ainda assim, aqui se tornou pra mim uma oportunidade de poder sonhar. No auge dos meus 45 anos, recalcular a rota da vida (de novo e mais uma vez), nesta que foi a minha décima mudança de casa, muitos ainda ficam confusos e pasmados desta minha busca incansável por um lugar que talvez realmente não exista: um lugar onde eu me sinta parte. Mas eu só vou saber se tentar.
E é isso que estou fazendo, AQUI e AGORA. Também posso dizer com sinceridade e com muito respeito aos meus antepassados e raízes familiares que estão no meu coração: desde meu primeiro dia aqui, eu me sinto em casa.
Pra mim, que convivo diariamente nesse meu mundo particular, com uma mente cheia de caos, tão inquieta e com pensamentos inconstantes, a verdade é uma só: o que importa é ter uma vez na vida o sentimento e o prazer genuíno de dizer: “Enfim, estou em casa!”
Fabiana Flôres
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Bem vinda à casa✅️🌏🦋💜🌸
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