# 007 No caminho encontro Vitório
Ela me contou um pouco sobre sua vida. Vinha de outro estado, foi enganada por uma prima com uma promessa de trabalho e um recomeço de vida. Antes da partida sem ter ideia do que a esperava, vendeu tudo o que tinha. Outras coisas doou para conhecidos. Após uma longa e cansativa viagem de carro, chegando em Santa Catarina ela se tornou empregada da prima, do marido dela e filhos. Quando o marido da prima abriu uma lanchonete, ela foi contratada. Trabalhava muito e ganhava pouco, sem condições de retornar à sua cidade. Disse ser uma cozinheira experiente, com conhecimento de pratos elaborados. Mas ali estava ela preparando lanches, petiscos e servindo os clientes. Me disse sobre as três faculdades que era formada, entre elas gastronomia. Das empresas que teve um dia, uma delas de muito sucesso era uma “casa de repouso” ou também conhecida como "Instituição de Longa Permanência para Idosos". Ela tinha uma grande equipe de enfermeiros e outros colaboradores. Foi uma empresária de sucesso! Mas havia uma questão: ela era alcoolista (atualmente não se usa mais o termo "alcoólatra") e me disse ter sido uma pessoa obesa - por uma vida toda, desde criança sofrendo os preconceitos que uma pessoa fora dos padrões sofre. Ela convivia com sua mãe, uma filha e uma netinha. Com o falecimento da mãe, ela se viu completamente perdida. Elas eram muito próximas. A relação com a filha também tinha muitas questões, o que dificultava o convívio com a netinha. Toda uma trajetória de vida marcada com idas e vindas, sucessos e fracassos constantes sempre afetados diretamente pela bebida. Ao realizar a cirurgia bariátrica, a relação com o álcool ficou mais evidente. E com a vinda dela pra outro estado morando há milhares de quilômetros de casa, ela se via completamente perdida. Depois do café, ela já se sentia um pouco melhor. Me disse que não morava mais com a prima, estava numa espécie de “casa de passagem”, um local mantido pela prefeitura para pessoas em situação de rua ou que transitavam entre cidades. Me disse que se sentia melhor e que conseguia ir embora sozinha. Pediu meu número de contato e por meses, mantivemos algumas conversas.
Eu não sabia o que fazer. Falando com uma amiga, recebi a orientação de procurar grupos de apoio. Falei com dezenas de pessoas, uma passando pra outra e nada, até que consegui o contato de um grupo de apoio do A.A. (alcoólicos anônimos) exclusivamente para mulheres. Por conta disso, conheci pessoas incríveis, como a diretora do grupo: uma mulher na faixa dos seus cinquenta anos, alcoolista e há mais de 10 anos sem beber. Nas conversas com ela, perguntei como poderia ajudar a Vitório (com “o”, esse é o sobrenome dela). Essa diretora me explicou que há um grande índice de pessoas, principalmente mulheres que após a bariátrica direcionam sua ansiedade e outras questões para diferentes tipos de compulsão, sendo a mais recorrente o álcool. Fiquei muito surpresa, não fazia ideia. Além disso, uma pessoa que faz essa cirurgia, precisa de um acompanhamento antes, durante e após o procedimento. O emagrecimento expressivo, a falta de reconhecimento da auto imagem, o novo estilo de vida, o controle pela comida que pode gerar inclusive compulsão alimentar, as questões profissionais, familiares e uma nova ressocialização - uma nova “vida em sociedade”, tudo isso pode realmente deixar a pessoa desequilibrada tamanha a pressão que vive. Marquei um café com minha nova amiga, Vitório. Ela parecia outra pessoa. Uma aparência mais serena, mais tranquila mas ainda com muitas dificuldades. Foi uma conversa muito difícil, pois eu não tinha recursos financeiros para ajudá-la. Ao mesmo tempo, após receber as orientações do A.A., eu tinha que entrar no assunto sobre a busca por tratamento e ajuda para sair daquela situação de vulnerabilidade em que vivia (sem dinheiro, sem trabalho, sem casa). E como falar de algo tão pessoal sendo eu uma mera desconhecida? Então, de uma forma muito delicada e depois de muita conversa, falei pra ela do grupo, dos encontros e do suporte que ela teria lá. Passei o telefone de contato e fui acompanhando também em conversas com a diretora. Com a Vitório trocava mensagens de “oi” e “bom dia”. Ela me mandava vídeos com frases e pensamentos felizes ou músicas. Outras vezes me mandava áudios dizendo o quanto era feliz em ter me conhecido, ou contando como foi seu dia. Em paralelo eu falava com a diretora que manteve conversas com ela, marcando inclusive de irem juntas no primeiro encontro do grupo. Mas ela não foi ao A.A. Combinaram dia e horário, mas um pouco antes de se encontrarem, Vitório avisou dizendo que não poderia ir, e assim foram as vezes seguintes. Sempre acontecia algo, uma desculpa e sendo assim, não participou do grupo. Em novas conversas que tivemos, ela falava muito sobre suas recaídas, tanto da bebida quanto da comida. Era tudo muito difícil pra ela. A perda da mãe, a distância da filha e da neta, a impossibilidade de ir embora pra sua cidade. A frustração do que conquistou e perdeu por conta de suas compulsões. Das decisões tomadas e dos caminhos “tortos” que a vida dela continuava seguindo. Durante alguns meses mantivemos contato, mas aos poucos, fomos nos distanciando. Sabe, dos trabalhos que realizo seja na ilustração ou escrita, todos envolvem muita pesquisa. Com isso, das coisas que ela me contou, acabei achando a maior parte delas na internet. Um perfil abandonado no Facebook, fotos públicas dela com a mãe, filha e neta. Cadastros de empresas em seu nome (ela me passou seu nome completo) e outras que comprovavam as formações que ela me disse ter (daquelas três graduações). Por fim, em um dos nossos últimos contatos, ela havia conhecido alguém e estava namorando. Conseguiu também um novo emprego. Me disse que havia se reaproximado da filha, mantendo chamadas de vídeo onde podia também ver sua netinha. Estava tentando mais uma vez reorganizar a vida e enfim se sentia feliz, de uma forma que não vivia há tempos!
Meu avô materno era alcoolista, mas havia se recuperado antes de eu nascer, não tive as vivências que minha mãe, avó, tios e tias tiveram convivendo com alguém mergulhado nas profundezas da bebida. Minha avó paterna também era alcoolista. Convivi muito pouco com ela (quando minha avó faleceu eu tinha apenas seis anos). Mas as histórias contadas pelos familiares dela bêbada eram muito tristes, terríveis mesmo. Além disso, demorei muitos anos pra admitir e poder verbalizar que sim, meu ex-marido não "bebia um pouquinho a mais", ele também era alcoolista. E era esse o meu contato com uma tal doença chamada alcoolismo (não sei se você sabia, mas é sim reconhecido como doença). Viver isso que passei ao conhecer a Vitório foi marcante pra mim. Além disso, por eu ter também compulsão alimentar, toda essa situação me tocou num lugar muito mais profundo, sabe? Pensar sobre certas coisas que vivi mas que ainda assim, pude conseguir “dar conta”, seja com ajuda de amigos, terapia, medicação ou encaradas por eu mesma - penso na quantidade de pessoas (em especial, mulheres) sem rede de apoio e sem o suporte necessário pra serem cuidadas e acolhidas, sem terem a menor chance de se reerguer e lutar contra isso tudo.
Comida e bebida estão perto de nós o tempo todo, olhe a sua volta. Nas redes sociais, nos eventos, na mídia em geral. Nos encontros em família, na socialização com amigos ou colegas de trabalho. Então, quando alguém do seu convívio não aceitar bebida alcoólica ou não ser a mais participativa no “churras” de domingo, olhe mais de perto pra essa pessoa. Talvez ela não esteja sendo rude ou “antissocial” como banalizamos dizer hoje em dia. Talvez seja apenas alguém que não está dando conta e encontrou refúgio no isolamento. Então, aproxime-se. Essa pessoa pode estar precisando de ajuda.
Ter um olhar sem julgamentos neste momento faz toda a diferença. Assim, quem sabe, poderá ter a chance de realizar de uma forma incrível algo por ela, de um jeito que você nem imagina. Algo como a possibilidade de salvar a sua vida.
Fabiana Flôres
Ilustradora - Escritora - Designer
e Corredora de Rua Amadora TCA
Transtorno de Compulsão Alimentar
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