#008 Enchentes transbordam. Bordas infinitas, não!

 Depois da corrida volto caminhando pra casa. Ainda que geralmente refazendo o mesmo caminho, fico atenta em observar alguma diferença na paisagem ou até mesmo prestar atenção em algo que eu possa ter passado em frente - talvez,  dezenas de vezes e não tenha percebido ainda. Uma casa, um novo comércio, uma árvore ou uma placa qualquer.

No trajeto também observo o crescimento acelerado da construção civil nas proximidades da Orla de Atalaia. Sendo assim há um grande investimento na divulgação de anúncios dos novos residenciais, os chamados “Lar dos seus sonhos” ou “More a poucos metros do mar”.

Há poucos dias notei a mudança na imagem em uma das placas de outdoor. Agora a foto é de uma mulher em uma daquelas piscinas de “borda infinita”. Ela estava de perfil, com a água quase na altura dos ombros. Os dois braços apoiados no beiral como quem observa o horizonte em uma daquelas paisagens com céu muito azul, nuvens brancas e uma belíssima vista pro mar! Não sei bem explicar, mas particularmente isso sempre me incomodou: por que alguém gostaria de estar se refrescando na água, ali parada há poucos metros da praia mas sem o menor interesse em entrar no mar? Apenas olhando. Pode ser que você goste ou ache até isso algo muito comum, mas pra mim não faz muito sentido. Isso me leva pra aquele lugar de privilégio, de seletivo, quase como aquele antigo discurso de “meritocracia”. Em contrapartida, meus pensamentos voltaram no tempo por um breve instante a um dia em que nunca esquecerei. Num dos lugares onde morei no litoral de Santa Catarina, o pequeno e precário prédio verde de apenas um andar que ficava a pouco mais de 1km da praia. Era no final da rua, perto da marginal, em uma região muito, mas muito barulhenta. Com o trânsito intenso entre os sentidos Norte e Sul do litoral catarinense - eu estava lá, no meio do caminho. Em épocas conhecidas como “temporada” que acontecem entre os meses de novembro a fevereiro, o volume de carros era ainda maior. Não sinto saudades disso: dormir e acordar com barulho constante de carros e caminhões, sem fim. Haviam então no térreo cinco pequenos apartamentos e no andar de cima, onde eu morava, apenas quatro. A estrutura era no formato de “U” onde no centro havia espaço do estacionamento, mas apenas para os proprietários quando vinham mensalmente cobrar o aluguel no estilo “Senhor Barriga” na Vila do Chaves. Sim, o pagamento poderia ser via transferência bancária mas além das câmeras por todo o entorno dos apartamentos, eles gostavam também de visitas periódicas para ver como “estavam indo as coisas”. Além disso, havia uma rotatividade constante entre moradores que ficavam por apenas poucos meses. Mas diferente deles, eu e uma outra vizinha já estávamos por lá há alguns anos. Na época do ocorrido que compartilho a seguir, ela era a inquilina mais antiga, depois saiu e eu então fiquei por mais algumas dezenas de meses. Não sei se onde você mora a previsão do tempo é uma preocupação no seu dia a dia, seja pra ir ao trabalho ou pra fazer qualquer outro tipo de deslocamento.

Entre 2004 até 2024 eu morei em lugares onde passei por pelo menos 5 ciclones que vão desde o Furacão Catarina (na cidade de Navegantes em 17/03/2004 com ventos acima de 180 km/h), até o Ciclone Bomba (em Blumenau no dia 30/06/2020 com ventos acima de 100 km/h). No caso de enchentes, foram algumas também (em Blumenau a de 2008 e depois outra em 2011).

Então minha gente, quando eu vejo a previsão do tempo além de saber “simplesmente” qual a temperatura e se teremos “sol ou chuva”, eu confiro até a velocidade do vento. Pois é, acabou virando um hábito, mesmo aqui em Aracaju no bairro onde moro atualmente sendo verão o ano todo, com uma brisa refrescante e com curtos períodos de ventos um pouco mais agitados. Mas nada perto do que já vivenciei. Ah, e teve aquela vez também (nesse mesmo prédio verde) em que a chuva e o vento estavam tão violentos que o forro que era de PVC branco parecia ser feito de "cartolina", subindo e descendo com a força da ventania. Eu temia que a qualquer momento minha casa se tornaria uma daquelas cenas do filme Twister (de 1996, com a atriz Helen Hunt). Acima dele, uma pequena camada de eternit que foram perfurados devido ao terceiro elemento da tempestade: pedras de granizo. Ficamos abraçados eu e a estatueta do Santo Antônio que ganhei de minha avó - mas isso é conversa pra uma outra hora. E apesar de todo o medo indescritível que passei nessas situações, os danos que tive na maior parte foram mais emocionais que materiais. Agora voltamos lá pro meu antigo “prédinho” verde, no final da Rua 252. Havia uma pequena inclinação em que o ponto mais baixo da rua ficava bem em frente ao portão do pátio. Não era nada parecido com as ladeiras da cidade de Blumenau, não mesmo. Mas apesar de Itapema ser uma cidade considerada plana, haviam essas pequenas elevações. Então, em dias muito chuvosos, toda aquela água descia calmamente pela rua e se acumulava…onde? Em frente ao meu prédio e claro, avançando em todo o pátio até chegar a invadir os apartamentos que ficavam no térreo. E pra completar, alguns deles eram um “pouco” mais baixos que o nível do pátio, entre eles o daquela minha vizinha mais “antiga” que comentei anteriormente.

O apartamento dela ficava em torno de uns 40 a 50 cm abaixo do nível do terreno, ou seja, praticamente uma “piscina” em forma de moradia. E respondendo a sua dúvida: não, não tenho ideia por que os proprietários deixaram o apartamento assim. Talvez pela questão da altura do teto - que se o chão fosse do mesmo nível da área externa seria como se você estivesse fazendo uma visita em uma das casinhas dos Hobbits - aquelas com portas e janelas redondas, lembra?

Pensemos então aqui todos juntos: o clima está, digamos, “desorganizado” atualmente, pra não dizer outra coisa. É calor no inverno, é frio no verão, e os períodos mais chuvosos estão ficando cada vez mais intensos, ou seja, despejando água por muito muito mais tempo e em maior quantidade. Foi assim que aconteceu numa certa vez em que choveu durante toda a madrugada sem parar. Era muita, muita água. Sendo assim, certamente era difícil dizer quem ali teve uma noite de sono tranquila - principalmente os moradores do térreo. Apesar de eu acordar dezenas de vezes durante a madrugada, consegui dormir por algumas poucas horas. O despertador me chamou pra mais um dia. Quando levantei e olhei pela janela - que tinha uma tela de proteção fininha, fixada na guarnição deixando a paisagem ainda mais hostil, vi que a rua tinha se tornado uma espécie de rio - mas ainda assim, não invadiu os apartamentos de baixo. Só que a água já estava chegando na porta deles. Aí para quem já passou por uma enchente ou algo parecido já sabe o que nos resta esperar: tudo ao seu redor começando a ficar molhado. Depois sem luz, sem internet, incomunicáveis e isolados! Ainda me aprontei para ir ao trabalho com a esperança de conseguir passar por ali, quem sabe, com alguma carona da empresa, mas nem carros circulavam mais pela minha rua. Fiquei então ali no andar de cima parada, observando aquilo tudo. Alguns vizinhos do térreo, já preocupados, não sabiam o que fazer. Sugeri que fossem trazidos seus pertences ali pra parte de cima, já que em frente aos apartamentos havia uma pequena área comum com uma grande mesa e bancos de madeira. Um dos vizinhos do térreo então trouxe algumas sacolas de roupas, eletrodomésticos e outras coisas pessoais. Lembro que ofereci ajuda, mas ele não quis, dizia ter tudo “sob controle”. Me dispus então a fazer pra ele um café e conversarmos um pouco.

Ele me disse que passou toda a madrugada monitorando a chuva e não dormiu nem por um instante. Colocou em cima da cama sacolas, calçados e caixas. Tentou fazer uma espécie de suporte para apoiar a geladeira e o fogão, colocando-os a um nível mais acima do chão, mas com poucas esperanças de que a chuva pararia.

Logo depois, aquela minha vizinha “antiga” subiu também e ficou lá conosco. Alguns vizinhos de baixo não estavam em casa e com seus apartamentos fechados não havia o que fazer (não, não tínhamos um “grupo do zap” pra nos comunicar. Isso só foi feito depois deste dia tenebroso). A chuva não parou. A água continuou subindo. Lembra que o apartamento da vizinha “antiga” tinha o piso mais baixo? Pois é, a água começou a entrar. Eu e os outros moradores lhe diziam pra começar a trazer suas coisas pro andar de cima, mas ela dizia que era pra esperar mais um pouco. “Vai que a chuva pára, não é mesmo?”, mas não parou. Ela continuava observando, mas notei um olhar um tanto perdido. Falei para ela que a ajudaria a começar a retirar seus pertences, e ela nada respondeu. Só olhava. Fui pro meu apartamento, troquei de roupa, voltei a falar com ela. “Vem, eu tô pronta. Eu te ajudo. Vamos lá pegar as suas coisas. Seus documentos, o que a gente conseguir. Vem!”. E ela em estado de choque me olhava sem saber direito o que fazer. Falei de novo enquanto o vizinho e a outra vizinha perplexos continuavam um tanto quietos. Eu cheguei bem perto dela, segurei sutilmente no seu braço e disse “Vamos, vamos agora! Eu te ajudo, vem!”.

Descemos então pela escada lateral. A chuva já havia tomado conta do pátio e quando os degraus terminaram, caminhávamos com água até os tornozelos. Como o piso da casa dela era mais baixo, quando entramos lá a água já chegava perto da altura dos joelhos. Me lembro bem, o botijão de gás dela literalmente flutuava. Aquilo ali não parecia ser real. Quando nós duas estávamos dentro do apartamento ela me olhou e disse “O quê que eu pego primeiro?”, vendo tudo ficando cada vez mais molhado. Acho que foi ali que ela, digamos, “acordou” pra situação.

Eu disse pra embalar em plásticos seus documentos, todos. Voltei em casa para buscar bolsas e sacolas. Ao retornar, entramos no quarto dela. Havia uma cama boxe que ela tentou sozinha suspender apoiando em bancos e cadeiras. A água quase cobria esses suportes. Ela tinha roupas em prateleiras e outras penduradas em cabides nas suas duas araras de alumínio, sem guarda-roupa. “Pega aquelas peças ali, eu vou guardando essas.” A outra vizinha, de cima observando tudo disse “Vocês precisam de ajuda?”, eu disse “Sim, claro!”. Começamos a pegar então os itens de cozinha: o forno, o liquidificador, as panelas. A gente se pergunta "O que é mais importante nessa hora?". Pra quem passa toda uma vida de dificuldades...tudo é importante. A água já estava quase alcançando a metade da altura de sua geladeira. Íamos caminhando por aquela água escura, indo e voltando. Indo e voltando. Subindo as escadas com sacolas, caixas e tudo o que era possível pegar.

O vizinho também desceu. Tentamos juntos retirar a cama boxe, virando ela pra passar pela porta do quarto, mas como a água já havia subido mais, só seria possível molhando boa parte da cama. Decidimos então subir um pouco mais o nível das cadeiras e bancos que estavam de suporte. “Vamos precisar de corda para amarrar aqui e ali, vamos precisar talvez de prego e martelo praquela outra parte.”, disse o vizinho. Falei que ia em casa pegar algumas ferramentas e tudo mais que pudesse ajudar. Com madeiras e outros móveis, subimos um pouco mais a altura da cama. Ela lamentava muito. Além da cama, outros bens ali eram novos.

Quando passei pela cozinha pra sair do apartamento, observei o sofá que agora também flutuava naquele aguaceiro. Essas retiradas com idas e vindas por toda aquela água suja durou horas, nem sei dizer quantas. Pegamos tudo o que foi possível. O olhar de tristeza tomava conta de todos nós. A chuva não parava e o dia foi passando. Como eu e a outra vizinha do andar de cima estávamos com todas nossas estruturas e pertences seguros, resolvemos então cozinhar algo. Ninguém ali havia tomado café da manhã ou almoçado. O vizinho e a vizinha “antiga” também tinham alguns pacotes de uma coisa ou outra - já que tudo o que havia me suas geladeiras se perdeu. Juntamos o que foi possível e a vizinha do andar de cima se ofereceu para cozinhar. Eu fui pegando o que tinha de comida em casa, além de potes, panelas, pratos e talheres. Almoçamos todos juntos. Parecia aquela cena de um almoço de domingo, sabe? A família reunida…mas não. Ninguém ali era muito próximo ou tinha afinidades, nada além de um  “Bom dia!” ou “Boa tarde, tudo bem?”. Por alguns instantes esquecemos todo aquele caos à nossa volta e conversamos um pouco. Meu vizinho perguntou num certo momento: “Então, você é filha de militar?”. Confesso que não entendi a pergunta. “Não.”, respondi. “Então você foi escoteira ou algo assim?”. “Também não.”, respondi. “Mas por quê, não entendi.”. “Olha, a sua logística de organizar as coisas, além de ter as ferramentas que precisávamos e a sua agilidade até mesmo em tomar decisões…pensei nessas alternativas.” Eu ri. “Então... Meu Pai é pescador, mas não tem nada que ele não monte ou desmonte e conserte. Tive um avô marceneiro e outro carpinteiro. Acho que é uma coisa de família mesmo.”, brinquei com ele. Rimos juntos. Foram pequenos instantes de felicidade. 

As vizinhas dormiram no meu apartamento e a vizinha de cima cedeu o seu para o vizinho que nos acompanhou durante toda a situação. Algumas horas mais tarde os dois irmãos (vizinho de baixo) chegaram pois passaram o dia todo fora de casa, pegaram o que foi possível e também dividiram o lugar com este vizinho). De repente aqueles pequenos apartamentos se tornaram um acampamento. No dia seguinte a água desceu. Falei com os vizinhos, conversamos rapidamente. Eu tinha que sair pro trabalho. No final do dia, retornando pra casa, minha vizinha “antiga” estava ainda lavando o piso e esfregando chão e paredes. Foi um dia seguinte de muito sol e céu azul. Ela e outros vizinhos colocaram o que foi possível no nosso quintal para que pudessem secar. Passei para cumprimentá-la e disse que ia trocar de roupa e vinha ajudá-la. Ela ficou surpresa, mas não negou a ajuda. Ficamos até altas horas lavando e passando cloro por todos os cantos. E lá estávamos nós duas naquele mesmo apartamento de novo, com muita água…Só que desta vez limpa!

A vida é um pouco isso - eu acho: tem vezes que estamos apoiados na borda, parecendo ter uma tranquilidade infinita, apenas contemplando o mar para além do horizonte. Já outras, caminhamos quase submersos em águas turvas, que seguem sem controle invadindo tudo o que temos, somos e acreditamos. É preciso ficar atento ao momento de observar e outras vezes, ter que se movimentar. Algumas fases da vida são assim, inesperadas. Mas saiba que quando chegar a hora e tudo transbordar, muitas vezes a única opção poderá ser entrar na água!

Fabiana Flôres

Ilustradora - Escritora - Designer 

e Corredora de Rua Amadora TCA 

Transtorno de Compulsão Alimentar


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